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Criadouro Kakapo

SELEÇÃO DE EXEMPLARES NA CANARICULTURA

 Rafael Cuevas Martinez

Juiz de canários de cor/FOCDE

Artigo extraído e traduzido do site da FOA

Federación Ornitológica Andaluza

Revista ABC 2006

Arquivo editado em 19/12/2006

 

Conceitos e generalidades

            O terno seleção aplicado a canaricultura significa a escolha de alguns canários entre um grupo, dando preferência a estes.

            O homem vem selecionando canários há mais de 500 anos. Além desta seleção artificial, o canário doméstico, como todas as espécies, tem sido submetido à influência da seleção natural, tanto de forma parcial devido à vida em cativeiro e por algumas mutações (canários brancos ou enfermos, por exemplo) que em estado silvestre desapareceriam, a qual tem suas vantagens, mas também seus inconvenientes.

            A seleção natural determina que os indivíduos de uma espécie melhores adaptados ao meio sobrevivam e transmitam suas características à geração seguinte.

            A seleção artificial é eficaz para se trocar os fenótipos nas populações animais e vegetais. Desta maneira, vem se conseguindo, por exemplo, vacas com maior produção de leite, galinhas com maior postura e maior tamanho do ovo, vegetais mais resistentes à pragas, etc.

            A seleção (natural e artificial), juntamente com a mutação, hibridação, crossing-over e cruzamentos adequados vem dando origem a numerosas raças e variedades de canários de cor, canto e porte que conhecemos atualmente.

            A reprodução sexual por meio de intercâmbio genético, separação dos pares de cromossomos homólogos e sua distribuição aleatória nos gametas – processos que  ocorrem durante a meiose durante a formação dos gametas – assim como as múltiplas combinações genéticas que se podem dar pelo encontro dos gametas mediante a fecundação, além das mutações, constitui uma importante fonte de variabilidade genética, sobre a qual tanto atuarão a seleção natural como a seleção artificial – determinada fundamentalmente por um critério de beleza proposto pelo homem – proporcionando a evolução do canário. A seleção depende da variabilidade genética, e a sua atuação reduz a “sorte” da variabilidade.

            No momento de seleção dos exemplares devemos ter muito claro que características são transmissíveis pela descendência, as quais se devem ao efeito ambiental e o grau de influência que o ambiente exerce na expressão de determinadas características. A hereditariedade faz referência à proporção de variação fenotípica de uma característica devida à herança e não a fatores ambientais. A hereditariedade pode ser alta, média e baixa. Seus valores oscilam entre 0 e 1. É muito importante conhecer a hereditariedade de cada característica que pretendemos selecionar, já que em função da hereditariedade de cada característica, obteremos uma pior reposta mediante à seleção; se a hereditariedade é baixa, ao selecionar os melhores fenótipos, é possível que não elejamos os melhores genes, que poderiam estar “mascarados” pelo efeito do meio ambiente.

            As características devidas a uma herança poligênica ou quantitativas, como o fator de refração, tamanho, expressão da categoria, são muito mais difíceis de selecionar e melhorar do que as devidas à uma herança de tipo mendeliano 1, devido a que intervem numerosos pares de genes (poligenes) e o meio ambiente tem maior influência.

            A seleção produz uma variação nas freqüências genotípicas2 e fenotípicas3 de uma geração à outra, diminuindo a freqüência de alguns genes e aumentando a de outros.

 Objetivos da seleção

            Por meio da seleção e com o passar do tempo, eliminaremos de nosso criador aqueles canários com características morfológicas, funcionais ou fisiológicas, sanitárias, de comportamento, etc., não desejados e com isto suprimiremos os genes responsáveis pela aparição de tais fenótipos. Devemos priorizar a seleção pela saúde à qualquer outro tipo de seleção, o que nos trará muitas recompensas. É muito conveniente, na medida do possível, levar a cabo uma seleção integral ou total, ou seja, aquela que considera numerosos aspectos do exemplar e não exclusivamente as características sujeitas à avaliação em concursos.

            Com a seleção conseguiremos os seguintes benefícios:

            Prevenção de enfermidades hereditárias;

            Melhora da fertilidade e criação;

            Maior resistência à infecções;

            Eliminação de malformações, quistos, etc;

            Exemplares mais saudáveis e robustos;

            Homogeneidade nas características dos exemplares de nosso criador;

            Maior produtividade;

            Melhora genotípica e fenotípica na cor, tamanho, forma, canto e todas as características que desejamos à seleção;

            Realização da muda com mais facilidade.

            Todos estes benefícios farão com que o criador se sinta satisfeito com sua atividade ao obter uma melhora na qualidade dos exemplares, o que, sem dúvida, repercutirá nas pontuações destes em concursos e nos resultados da próxima temporada da criação.

 Tipos de exemplares a selecionar

            Podemos selecionar exemplares para a reprodução (seleção de reprodutores), ou bem para fins de competição (seleção de exemplares para concursos – exposições).

 Seleção de reprodutores

            A seleção de reprodutores é fundamental e constitui o primeiro passo para conseguir a melhora genética em uma ou várias características no grupo ou grupos de canários que criamos. Para que se colha todos seus frutos, a seleção deve posteriormente complementar-se com adequados cruzamentos, baseados em um conhecimento genético básico aplicado a canaricultura, seja de canto, de cor, etc.

 Seleção de exemplares para concursos-exposições

            A seleção de exemplares com fins expositivos difere em alguns aspectos com respeito à seleção de reprodutores, apresentando as seguintes peculiaridades:

            1-Somente serão selecionados os exemplares no vos (filhotes);

            2-Não se poderão selecionar exemplares, que podem ser selecionados como reprodutores, mas que lhes falte uma unha ou plumagem, por exemplo, ou que não foram anilhados, etc.

            3-Deveremos selecionar os exemplares que por seu sexo, variedade ou categoria lhes de mais qualidade à essa grama. Por exemplo, os machos tanto intensos como nevados, salvo exceções, são melhores que as fêmeas. Em relação ao tipo, variedade e categoria de que temos disponíveis, se selecionarão os machos, as fêmeas ou ambos.

            A incorporação do fator de refração melhora, em geral, a qualidade do exemplar.

 Número de exemplares a selecionar

            A produção anual de exemplares (quantidade) favorece a melhora genética, já que indubitavelmente, quanto mais exemplares obtivermos, a probabilidade de que entre eles haja bons exemplares selecionados é direta. Quer dizer, se no lugar de obter 100 exemplares, com os mesmos casais obtivermos 150, é lógico que tiraremos um maior número de exemplares ótimos. Portanto, é muito importante que se tenha uma boa criação, para isso devemos nos dedicar com todo esforço e tempo necessários.

            Para obter um número suficiente de exemplares de uma determinada variedade e poder selecionar-los, é conveniente, obviamente, ter um certo número de casais; em tal sentido recomendo o criador à especialização em uma(s) determinada(s) variedade(s). É muito importante partir de exemplares provenientes de uma linhagem de alta qualidade. Por uma maior qualidade de uma linhagem, o número de exemplares de descarte será menor, e vice-versa.

            Tenha claro quantos casais formará para a próxima temporada e deixe alguns exemplares de reserva, principalmente fêmeas.

            Fique com os exemplares que realmente valham a pena para concursos ou como reprodutores.

 Intensidade da seleção

            Deve-se dar atenção que mediante a uma seleção muito intensa não reduzamos excessivamente a variabilidade genética em nosso criadouro, o que dará lugar a uma maior consangüinidade, com efeitos negativos sobre a fertilidade, tamanho, etc.

            Com uma seleção muito rigorosa poderemos obter bons resultados de forma mais rápida, mas nos resultará numa dificuldade de manter-los por vários anos se a consangüinidade for muito elevada. Com uma seleção menos rigorosa levaremos mais tempo para conseguir bons resultados, mas nos manteremos durante muito tempo, já que a variabilidade genética é maior e, portanto por haver menor consangüinidade, não aparecerão, ou se aparecerem serão em menor quantidade os efeitos negativos desta.

            É muito importante a homogeneidade da linhagem, dentro de uma certa variabilidade genética, mais do que dispor de vários exemplares de ótima qualidade com uma linha mais heterogênea geneticamente.

            A intensidade da seleção diminui com o tempo, já que à medida que passam as gerações, haverá uma maior porcentagem de indivíduos que manifestam estas características.

 Momento da seleção

            Podemos levar em consideração a seleção em dois momentos diferentes:

            a)Após o final da criação – Procederemos a eliminar aqueles reprodutores que tiveram maus resultados: machos estéreis, fêmeas com baixa taxa de postura, fêmeas que não criam bem, que biquem os ovos ou os filhotes, casais nos quais morrem a maioria dos filhotes e exemplares que por sua idade não é conveniente que criem na próxima temporada. Igualmente procederemos, dentro dos jovens, a eliminar aqueles pássaros lipocromicos com manchas melânicas, unha ou plumas brancas nos melânicos, malformações, quistos, etc.

            b)Após o fim da muda de penas – Terminada a muda, o pássaro expressará o máximo de sua cor e outras características genéticas e será o momento adequado para proceder sua seleção. Se fará uma previa sexagem dos filhotes. Serão eliminados os exemplares com muda defeituosa, pois isto é sinal de saúde delicada. Também poderemos optar por eliminar aqueles exemplares que nasceram muito tarde na temporada, pois é provável que no próximo ano não criem.

 Seleção de exemplares de categoria mosaico

            Em relação aos canários de categoria mosaico, em sua seleção deverá levar em conta a linha que seguimos em nosso criador (linha de macho ou linha de fêmeas), e que a seleção seja para reprodutores ou de exemplares para concurso, pois se seguimos a linha macho, as fêmeas mesmo que sejam selecionadas como reprodutoras, não serão aptas para concurso, pois terão categoria defeituosa. Um exemplo similar, podemos apresentar com os machos mosaicos da linha fêmea, que pela mesma razão anterior não serão aptos para concurso.

 Tipos e técnicas de seleção

            Previamente à seleção dos exemplares se procederá uma valorização de todas as características a selecionar.

Para levar em consideração a seleção é muito importante ter um bom registro de todos os exemplares, em que nele constem suas características, filiação, defeitos e virtudes. Este registro poderá ser feito mediante um programa de computador.

Na seleção de exemplares deveremos ser objetivos e não deixemos levar por sentimentalismo por determinados exemplares que poderiam prejudicar a seleção.

É indubitável que para selecionar uma determinada característica, seja de cor, canto ou postura, devemos conhecer a perfeição das características ótimas da característica que pretendemos selecionar. O canaricultor está obrigado a ter um conhecimento detalhado e atualizado do padrão dos tipos de canários ou outros pássaros que cria se quiser fazer uma boa seleção de seus exemplares.

Selecionar baseando-se exclusivamente no fenótipo de cada exemplar  isoladamente (seleção individual) é algo parcial, considerando a influencia do meio ambiente, especialmente em algumas características. É importante selecionar, por comparação com o fenótipo dos exemplares parentes, que dizer, consangüíneos:

ascendentes, descendentes, irmãos, primos, etc, pois nos dará uma idéia mais aproximada da natureza dos genes deste exemplar, é o que se conhece por seleção familiar. Podemos efetuar este tipo de seleção baseando-nos em:

a) ascendentes (pais, avós, etc)

b) descendentes (filhos, netos, etc)

c) irmãos que é a mais freqüente na canaricultura. A seleção por descendentes permite calcular o valor genotípico do exemplar através da observação do fenótipo da prole.

Às vezes se pode realizar utilizando de forma combinada estas três opções, o que é indubitavelmente melhor, porém mais trabalhoso.

A seleção em nível familiar é mais confiável que a individual já que se efetua considerando um maior número de dados. A seleção familiar é necessária para selecionar algumas características, por exemplo, se queremos selecionar um canário macho pela produção de ovos, teremos que avaliar seu valor genético por seus familiares fêmeas, ou ao contrario, se queremos selecionar uma fêmea pelas características de canto, deveremos nos fixar em seus familiares machos. Naquelas características de baixa hereditariedade, a partir da observação dos fenótipos de seus familiares, poderemos obter uma informação mais detalhada.

Quando a seleção de um indivíduo se realiza exclusivamente em função do valor de sua família, se fala em seleção familiar e se somente se considera o valor de um indivíduo em relação a família se trata de uma seleção  intrafamiliar.

A seleção combinada considera conjuntamente a seleção familiar e intrafamiliar e é mais exata.

Poderemos levar em consideração a seleção de forma isolada para cada uma das características, eliminando os indivíduos ou famílias que pior expressem estas características, ou considerando de forma combinada todas as características a selecionar e estabelecendo uma pontuação em cada exemplar para cada característica.   Somaríamos todos esses valores parciais em um valor total e para cada exemplar conhecido (índice de seleção). Os métodos usados para construir o índice de seleção são variados. Posteriormente aluaríamos selecionando os exemplares que apresentem um maior valor numérico no índice citado e eliminaríamos os exemplares mais mal pontuados para todas estas características, consideradas conjuntamente. A seleção raramente se utiliza raramente de uma só característica, mas sim para
várias ao mesmo tempo. Por menor número de características selecionadas se conseguirá uma maior qualidade nos mesmos que se o número de
características é maior, já que a precisão de seleção neste último caso é menor.

Considero que a seleção isolada de características é menos rigorosa e mais sujeita a erros que a seleção combinada, já que podemos descartar um exemplar simplesmente porque uma só característica não se expresse corretamente.

Se dispomos de uma variedade com várias linhas de criação, mediante à seleção, podemos atuar reduzindo o número de linhas ou de famílias dentro de uma mesma linha, por exemplo, tomaremos todos os exemplares de
cada uma das linhas e compararemos em grupos entre cada linha (seleção interlinha), elegendo as melhores, descartando os exemplares das piores linhas. Posteriormente atuaremos elegendo os melhores exemplares em cada linha (seleção intralinha) ou família selecionada.

Na medida do possível, teremos várias linhas, assim poderemos optar por reproduzir um maior número de exemplares das linhas de melhor qualidade.

A melhora de uma linhagem é uma questão trabalhosa e em longo prazo, pouco a pouco.

Se selecionarmos uma determinada família e observarmos, não obstante, que um exemplar se destaca na média na apresentação de uma determinada característica, procederemos a elimina-lo. Quer dizer, deve-se eliminar, em todo momento, as expressões extremas e defeituosas das características que selecionamos, sempre e quando estamos selecionando valores medianos e não valores extremos, como ocorre em alguns tipos de seleção, como por exemplo, pelo tamanho. A seleção das características quantitativas como o tamanho, se pode realizar elegendo um dos valores extremos de apresentação de certa característica (por excesso ou por defeito), ou elegendo os valores centrais ("recortar as pontas") em função de que selecionaremos pássaros grandes, pequenos ou de tamanho normal.

 

GLOSSÁRIO:

1 - Mendeliano : quando nos referimos às Leis de Mendel (referentes a tipos de hereditariedade de características genéticas)

2 - Genotípico : conjunto de caracteres genéticos que determinam o fenótipo de um indivíduo.

3 - Fenotípico : conjunto de caracteres físicos (por exemplo cor, desenho) que nos permite identificar indivíduos como pertencentes a um certo grupo.

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